ARTIGO - Corpos Contemporâneos, Corpos Transgressores
O ensaio, no entanto, concebido em quatro capítulos – “O Número”, “O Espaço”, “O Espaço Contraído” e “Detalhes” –, parece constituir uma saída para o que a autora denomina “autismo benigno” e que a faz “depender inteiramente de um olhar carregado de desejo e das carícias” (Millet, 2001, p. 165) que acabarão por cobri-la. Assim é que a sua exposição, distanciada, parece ser mesmo objeto de uma operação especular, de relato. O detalhe e a precisão da narrativa aplicando-se não só à descrição dos corpos, às posições sexuais, às secreções e aos gozos, mas também aos locais e às cidades em que as cenas se passam.

Depois dos números, a autora trata de ampliar e igualmente contrair os espaços. Com efeito, como crítica de arte, Millet encontrou na arte moderna e contemporânea obras pictóricas das quais se pode dizer que se situam no limiar entre o espaço imaginário e o espaço que habitamos, o espaço real. O que caracteriza tais obras, dirá Millet, é que não apenas abrem o espaço mas também o fecham. Situando-se, então, no limiar entre o espaço imaginário e aquele que habita, tendo associado o “amor físico” a uma conquista do espaço, Millet considera que, “de maneira geral, deve haver uma ligação intrínseca entre a ideia de se deslocar no espaço, de viajar e a ideia de trepar” (Millet, 2001, p. 120). É nessa medida que Millet explicitará o quanto foi necessário percorrer “distâncias geográficas para ter acesso a algumas partes de mim mesma” (Millet, 2001, p. 121).

Por um “lugar psíquico de constituição de subjetividade”

Os “Detalhes”, contudo, vêm confirmar o percurso que Millet parece fazer em relação a si própria (Millet, 2001, p. 167):

Não é a nudez que temo, ao contrário, é o instantâneo da revelação. (...) É absolutamente necessário passar pelo olhar do outro. Não sei dizer: ‘Olhe!’. Espero, acima de tudo, que me digam com cuidado: ‘Olhe como eu te olho…’”.

Assim, vale observar que, na medida em que a presença do conflito neurótico cuja gênese não se encontra primariamente na sexualidade edípica finda por impor aos sujeitos processos constitutivos, tornando-se necessário supor a existência de um “lugar psíquico de constituição de subjetividade”, por meio do qual processos fundadores dos sujeitos possam se dar, desconhecer-se e conhecer-se, desconhecer-se e conhecer-se uma vez mais, tanto por meio da experiência psicanalítica, como a da escritura (Bartucci, 1999a, 1999b/2001), quanto – e pareceria ser esse o caso de Millet – por meio do sexo, do uso e da manipulação de seu próprio corpo, implica a possibilidade de instituir um lugar-outro de constituição de subjetividade.

Millet parece, de fato, atestá-lo permanentemente (Millet, 2001, p. 182):

Eis-me explicando que prefiro manter coberto tudo que é comum desnudar, enquanto aqui mesmo (neste livro) exponho uma intimidade que a maior parte das pessoas mantém em segredo.

Não é preciso dizer que, a exemplo da psicanálise que nos ajuda a abandonar no meio do caminho alguns farrapos de nós mesmos, escrever um livro na primeira pessoa acaba por relegá-la à terceira pessoa. Quanto mais detalho meu corpo e meus atos, mais me separo de mim mesma – dirá a autora, afinal.





Referências

Bartucci, G. (1999a). Psicanalítica freudiana, escritura borgiana: Espaço de constituição de subjetividade. In M. Cid & C. Montoto (Orgs.). Borges centenário (pp. 125-42). São Paulo: Educ.

Bartucci, G. (1999b). Entre o mesmo e o duplo inscreve-se a alteridade: Psicanálise freudiana e escritura borgiana. In G. Bartucci (Org.). Psicanálise, literatura e estéticas de subjetivação (pp. 369-85). Rio de Janeiro: Imago, 2001.

Bartucci, G. (2004). Psicanálise e contemporaneidade: Por uma clínica diferencial das neuroses. Tese de doutorado. Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IP-UFRJ). Programa de pós-graduação em Teoria Psicanalítica. Inédita.

Bataille, G. (1957). O erotismo. Tradução de C. Fares. São Paulo: Arx, 2004.

Hobsbawm, E. (1994). Era dos extremos: O breve século XX: 1914-1991. Tradução de M. Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Millet, C. (2001). A vida sexual de Catherine M. Tradução de C. Fares. Rio de Janeiro: Ediouro.

Sontag, S. (1967). The pornographic imagination. In: S. A. Sontag. Susan Sontag reader (pp. 205-33). Nova York: Vintage Books, 1983.

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