ARTIGO - Corpos Contemporâneos, Corpos Transgressores
À frente de seu tempo, em permanente constituição

Com certeza, somente na medida em que considerarmos as características das subjetividades na contemporaneidade – ou seja, a presença do conflito neurótico cuja gênese não se encontra primariamente na sexualidade edípica (Bartucci, 2004) – é que se tornará necessário supor a existência de um “lugar psíquico de constituição de subjetividade” (Bartucci, 1999a, 1999b/2001) por meio do qual processos fundadores dos sujeitos possam se dar (Bartucci, 2004). Fundamentalmente porque o reconhecimento da noção de um inconsciente psíquico – cuja tópica, ao destacar diferentes modalidades de representação psíquica, inconsciente, pré-consciente e consciente, funda um campo de representações – deverá ser antecedido pela instauração dos espaços externo-interior e interno-exterior (Bartucci, 1999a, 1999b/2001), indicando posteriormente a existência de uma atividade sexual pulsional e fantasística.

Não à toa, então, o exemplo mais recente, no campo das letras, da idéia de que o conhecimento possa ser constituído, construído, por meio do uso do corpo e da escrita, por meio da “experimentação” da transgressão, talvez seja A vida sexual de Catherine M., livro da crítica de arte francesa Catherine Millet, lançado no ano de 2001. Um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos anos, permaneceu, na França e em todos os países para cuja língua foi vertido, por muitas semanas na lista dos mais vendidos. Facilmente classificável por seus críticos como “pornografia” e sua autora como uma “libertina praticante e declarada”, A vida sexual de Catherine M. tem implicações bastante importantes.

Confundindo os limites entre ficção e realidade, confissão e exibicionismo, privacidade e vida pública, arte e marketing, Millet expõe-se com absoluto despudor, ao publicar sua autobiografia sexual. Contudo, ainda que tenha sido agraciado com o então recém-criado prêmio “Sade” – premiação que parece ter implicado a validação da obra pela tradição da libertinagem na França –, o ensaio de Millet é bem mais do que sexo. De forma distinta do que afirmam muitos de seus críticos, é possível considerar o seu ensaio em nada pornográfico ou libertino.

O fato é que se, por um lado, A vida sexual de Catherine M. contém descrições de atos sexuais que “violam” a moral convencional, por outro, não tem a intenção de excitar o leitor, ao colocá-lo na posição de voyeur de uma experiência erótica. Ainda que a ensaísta descreva a série infinita de relações sexuais que manteve, a obra não reivindica nada em seu conteúdo, e parece estar à frente de seu tempo. Assim é que o ensaio de Millet – se não um relato clínico, certamente um “exercício clínico” –, honesto, íntegro e explicitamente elaborativo, nos remete às questões que destaquei acima e que considero fundamentais: qual o lugar do corpo na contemporaneidade? Em que medida o “uso” do corpo, assim como o da escrita podem ser constitutivos do sujeito?

Com efeito, a finalidade do sexo para Catherine Millet pareceria ser a de um prazer mais difuso – tendo sido sempre uma forma natural e direta de conhecer a intimidade dos amigos e dos desconhecidos. E, também, a sua própria intimidade, uma vez que a ensaísta percebia o seu corpo como um todo que não conhecia hierarquia, nem na ordem moral, nem na ordem do prazer – sua experiência sendo a de que, à medida do possível, cada parte podia ir substituindo a outra.

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