ARTIGO - Corpos Contemporâneos, Corpos Transgressores
Com um pai acometido pela cegueira antes do nascimento do filho, e parcialmente paralisado antes que Bataille completasse três anos de idade, a lenta e dolorosa morte de seu pai e a insanidade periódica de sua mãe, transmutados na experiência da proximidade cotidiana com a morte, configuram-se como o motor essencial de sua obra. Isso porque as obras ficcionais e teóricas de Bataille centram-se no horror e na obscenidade. “A obscenidade [significando] a perturbação que incomoda um estado dos corpos semelhante à possessão de si, semelhante à possessão duradoura e afirmada” (Bataille, 1957/2004, p. 29). Nessa medida, para o filósofo, cada sujeito é descontínuo como indivíduo. E “a morte tem o sentido da continuidade do ser: a reprodução leva à descontinuidade dos seres, mas ela coloca em jogo sua continuidade, quer dizer, ela está intimamente ligada à morte (Bataille, 1957/2004, p. 31).
Assim, “o que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas da vida social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades que somos nós” (Bataille, 1957/2004, p. 33). O erotismo, entretanto, também é conhecimento – uma vez que é a violação ou a transgressão daquela descontinuidade. Levando a uma fusão de seres, atestando a ruptura de limites e fronteiras, “do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na morte”. “Um caminho para a continuidade do ser na morte” (p. 39), sintetiza Bataille em O erotismo, trabalho publicado em 1957 e que condensa as principais dimensões de sua obra.
Mas o fato é que, se, para um dos representantes do pensamento pós-estruturalista, que tem no questionamento da moderna epistemologia baseada na distinção entre sujeito e objeto sua característica fundamental, tanto as suas obras ficcionais – como História do olho (1928) ou Madame Edward (1937), publicadas sob pseudônimos –, quanto os seus textos teóricos, como A experiência interior (1943), por exemplo, se fazem acompanhar de referências ou “ensaios” dedicados às experiências autobiográficas relacionadas ao tema em questão, confundindo, assim, os limites entre ficção e realidade, e se situando entre a ficção e a biografia, as questões relativas ao lugar que o corpo ocupa na literatura contemporânea são fundamentais.
Com efeito, vale lembrar ainda que se, por um lado, o erotismo é, para o filósofo, concebido como “um caminho para a continuidade do ser na morte”, apontando para uma experiência permanente de desconstrução, por outro, o contemporâneo se configura como o lugar da ausência de garantias. Dito explicitamente, na pós-modernidade, “a dissolução das formas da vida social, regular, que fundam a ordem descontínua das individualidades que somos nós”, já está dada. De fato, vivemos uma pluralidade de códigos impostos pelo processo de globalização, verificados nas instituições socializadoras e por meio dos quais se inter-relacionam mal-estar, violência simbólica e sentimento de insegurança, cujas raízes parecem estar nos processos de fragmentação do social. Como observou Hobsbawm (1994), a desconstrução dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas é um dos fenômenos mais característicos do final do século XX. Contudo, se, para a psicanálise, o campo do psicossexual é irredutível a dados biológicos, não sendo o corpo nem o somático, e tampouco o organismo, ultrapassando em muito o registro biológico da vida, marcado que está este corpo pelas pulsões, há que se ter cuidado para não sobrepor o corpo anatômico ao corpo erógeno. Dessa perspectiva, a questão fundamental parece ser: em que medida o “uso” do corpo, assim como o da escrita podem, na contemporaneidade, ser constitutivos do sujeito?