CORPOS CONTEMPORÂNEOS, CORPOS TRANSGRESSORES:
LUGAR EM QUE OUTROS NÃO ESTÃO1
Publicado na revista IDE. Psicanálise e Cultura – nº 41 – Págs. 41-44
Segundo semestre de 2005
Giovanna Bartucci
Aquele que transgride vai a um lugar em que outros não estão.
Em 1967, a intelectual norte-americana Susan Sontag publicava um instigante ensaio intitulado “A imaginação pornográfica”. A questão que levantava, à época, dizia respeito ao fato de a escritora não encontrar, na comunidade literária de língua inglesa, um autor que defendesse a idéia de que algumas obras entendidas como pornográficas pudessem ser consideradas obras de arte importantes e interessantes. E ela se perguntava como isso seria possível, uma vez que a pornografia era tratada como um fenômeno social e psicológico e, ainda, como um “lócus” fértil para avaliações morais.
Com efeito, se Sontag observava então a redução da pornografia a um sintoma psicopatológico e a uma mercadoria social problemática, também chamava a atenção para
o fracasso traumático da sociedade capitalista moderna em fornecer escoadouros autênticos para a perene tendência humana de abraçar obsessões visionárias de alta temperatura, de satisfazer o apetite para modos de concentração e seriedade de caráter autotranscendente e exaltado
2.
A autora sugeria ainda que “a necessidade dos seres humanos de transcender o ‘pessoal’ é não menos profunda do que a necessidade de ser uma pessoa, um indivíduo” (Sontag, 1967/1983, p. 231). E, finalmente, sustentava (1967/1983, p. 232) que
a imaginação pornográfica tem, apesar de tudo, seu acesso estranho a alguma verdade. Tal verdade. Tal verdade – sobre a sensibilidade, o sexo, sobre a personalidade individual, sobre o desespero, sobre os limites – pode ser compartilhada quando se projeta na arte.
De fato, será na sua relação com a arte que a literatura erótica se constituirá enquanto tal, uma vez que o que denominamos “poesia da transgressão” é também conhecimento. “Aquele que transgride não apenas desobedece a uma regra. Ele vai a um lugar em que outros não estão; e ele conhece algo que outros não conhecem” (Sontag, 1967/1983, p. 232).
Saber cotidiano sobre a morte
No caso do escritor e filósofo francês Georges Bataille, poderíamos dizer que esse “lugar em que outros não estão” se constituiu no seu “saber cotidiano” sobre a morte. Nascido em Billon, em 1897, e vindo a falecer em Paris, em 1962, Bataille se valeu de suas experiências pessoais e memórias de infância para compor tanto a sua obra ficcional como a teórica.
1 Este ensaio é uma versão modificada e levemente ampliada do artigo “A poesia da transgressão”, publicado originalmente na revista CULT, ano VII, São Paulo, maio de 2004, pp. 23-5.
2A tradução dos trechos aqui citados é de minha autoria.