ARTIGO - Entre Bigornas, Corpos E Sexos - Inventando O Sexo
É curioso, mas embora tenha discretamente sugerido “que o modelo de sexo único (de acordo com o autor, presente também em Freud) pode ser compreendido como um exercício para preservar o Pai, que representa não apenas a ordem mas também a própria existência da civilização”, Laqueur parece não extrair as implicações de seu próprio pensamento. Pergunto-me: por quais searas nos levaria, então, o autor caso considerasse, por exemplo, o lugar do corpo na configuração do social constituída na atualidade? De fato, se um número cada vez maior de mulheres “opta” pelo modelo da Barbie americana, temos, no outro extremo, a androginia mais absoluta. E ainda, enquanto o roteiro clássico do Édipo – a criança que deseja o pai do sexo oposto e se identifica com aquele de seu próprio sexo – entra em crise, também é fato que nunca se revelou tão verdadeira uma das descobertas mais fundamentais da psicanálise, o caráter não adaptativo da sexualidade humana. Afinal, se uma das versões possíveis acerca do surgimento da psicanálise o considera como tentativa de responder à questão da relação do sujeito moderno com o pai, por onde nos levaria o pensamento de Laqueur caso considerasse os efeitos do trabalho das ONGS, das comunidades organizadas, da luta mundial contra a Aids sobre esses nossos corpos de todo e cada dia?

Não é à toa que se a “pós-modernidade” é mesmo o lugar da ausência de garantias, se a globalização tem produzido o enfraquecimento de fronteiras, de distinções entre culturas, aliado a uma “mobilidade” econômica, geográfica e cultural, tem também produzido um contingente de excluídos cuja demanda por reconhecimento, talvez mais do que por inclusão, tem se tornado cada vez mais violenta. Assim, se, como observa o historiador Aldo Agosti, a globalização é inevitável, o caminho de expansão dos direitos parece constituir-se no projeto o qual tem fato, um novo trabalho caso Laqueur considerasse os efeitos destas mesmas organizações, das comunidades organizadas, da luta mundial contra a Aids sobre esses nossos corpos de todo e cada dia. como função governá-la, regulamentá-la, “mitigando” – na atualidade – seus piores aspectos. As organizações não-governamentais nacionais e internacionais têm se tornado, então, o lócus no qual os direitos humanos encontram possibilidade de articulação. Com efeito, se o modelo de sexo único pode ser compreendido como um exercício para preservar o Pai, este seria, de fato, um novo trabalho caso Laqueur considerasse os efeitos destas mesmas organizações, das comunidades organizadas, da luta mundial contra a Aids sobre esses nossos corpos de todo e cada dia.

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