ARTIGO - A Violência Da Pianista – A Delicadeza De Person
Na verdade, se no cinema documentário tradicional a preparação é anterior à captação das imagens, não sendo incorporada ao filme, o que se dá em Person é algo distinto. O fato é que, na medida em que o contemporâneo caracteriza-se pelo questionamento da moderna epistemologia baseada na distinção entre sujeito e objeto, ao dirigir e converter-se em personagem – simultaneamente –, Marina finda por confundir os limites entre ficção e realidade, privacidade e vida pública.

Com efeito, Jorge Luis Borges, um dos mais importantes literatos do século XX, já colocara em questão, em seus textos, a noção de autoria por meio da diluição da figura do autor e da fragmentação do foco narrativo, terminando por criar uma realidade própria de acordo com as leis que conhecera. Que esta dinâmica esteja agora presente na sétima arte é significativo: ao promover a diluição das fronteiras entre “sujeito” e “objeto”, realidade e ficção, Person explicita, de forma original, o experimentalismo presente no bojo dos processos da cultura. A diferença estando em que, na contemporaneidade, tal experimentalismo tem como função a constituição dos sujeitos – em oposição à ideia de desconstrução da “história oficial” dos sujeitos (ou seja, do registro narcísico do eu).

De fato, aqueles que já perderam o amor de uma vida inteira sabem que no momento em que esta vida se vai, se vai também o futuro – restando-nos a reconstrução. A perda de um pai, entretanto, implica na perda de uma referência – de um curvar-se para trás no tempo e um vir-a-ser –, de um antes de nós que nos diz quem somos. Se Person testemunha, afinal, a ausência de Luis Sérgio Person no cenário cultural brasileiro, atesta, simultaneamente, a capacidade de (re)construção dos sujeitos por meio da arte.

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