A VIOLÊNCIA DA PIANISTA – A DELICADEZA DE PERSON
Um é violento, difícil de assistir, e nos fala de uma época que cria para nós um roteiro de amor que somos incapazes de desempenhar; o outro, singelo, delicado, termina por se situar entre a biografia, a autobiografia e a ficção.
Publicado em CINEMAIS - Revista de cinema e outras questões cinema audiovisuais
Vol. 37 – Págs. 260-264
Outubro / Dezembro de 2004
Giovanna Bartucci

Em 1967, a intelectual norte-americana Susan Sontag publicava um instigante ensaio intitulado “A Imaginação Pornográfica” (The Pornographic Imagination). A questão que levantava, à época, dizia respeito ao fato de que a escritora não encontrava, na comunidade literária de língua inglesa, um autor que defendesse a idéia de que algumas obras entendidas como pornográficas pudessem ser consideradas como obras de arte importantes e interessantes. Perguntava-se como isso seria possível, uma vez que a pornografia era tratada como um fenômeno social e psicológico e, ainda, como um “lócus” fértil para avaliações morais.
1. O que fazer com o que fizeram de nós?
Não é a toa que A professora de piano / La Pianiste (2001), filme de Michael Haneke baseado em livro da escritora austríaca Elfriede Jelinek, mereceu três prêmios, melhor atriz, melhor ator e a Grande Premia do Juri, no Festival de Cannes no ano de 2001. As interpretações magistrais de Isabelle Huppert (Erika) e Benoit Magimel (Walter) parecem ser, de fato, a que a filme tem de melhor.
Michael Haneke, cineasta nascido em Munique, com estudos nas áreas de filosofia, psicologia e teatro tem, desde sempre, sido aclamado pela crítica internacional por filmes que não cedem a soluções conciliatórias no que diz respeito a intensidade e “exploração psicológica”. Fundamentalmente, Haneke entende que “levar o espectador a sério” significa lhe colocar questões. Para o cineasta, a arte não tem como função oferecer respostas mas questões, e questões apenas.
Mas do que será mesmo que trata A
professora de piano, filme que despertou mobilizações profundas quando de seu lançamento?

Huppert e Erika Kohut, uma competente professora de piano no Conservatório de Viena que, ao final de sua jornada de trabalho, frequenta cinemas pornôs e entretém-se com peep-shows em sex-shops. Obtém prazer no voyeurismo e na auto-mutilação. Em torno de seus 40 anos, mora com uma mãe (Annie Girardot) profundamente possessiva e rígida, que prima por observá-Ia, controlá-Ia e humilhá-Ia, impedindo-a de viver. Mais do que isso: a única forma por meio da qual essa mãe ocupa-se de sua filha – e nesse sentido, sua única forma amá-Ia – é fazendo-a sofrer. Frente a mínima percepção de que Erika possa ter uma vida própria, esta mãe estará sempre pronta a tirar-Ihe a vida. Em outras palavras, eis uma mãe que, em nome do “amor materno”, da moralidade, é capaz de matar.