ARTIGO - Concepções Contemporâneas Da Arte E Do Sujeito
Instituto Itaú Cultural, São Paulo, 2007: a fotografia que abre a exposição “Itaú Contemporâneo. Arte no Brasil 1981-2006” retrata a pintura da figura de um rapaz por sobre um muro, “rapaz” este que, situado atrás do muro, observa um homem de pé, à frente de um carro parado com a porta aberta, em uma rua deserta. Parte integrante do trabalho “Metabiótica”, do artista plástico e fotógrafo Alexandre Órion, pintura e fotografia dividem, aqui, um mesmo espaço urbano. E, com efeito, ao questionar os limites entre as linguagens, tanto da perspectiva formal, quanto conceitual, também é verdade que o trabalho do artista vai além – deixa rastro. “A interação registrada pelo artista (entre a pintura do rapaz, no muro, e o homem que para, desce de seu carro e se coloca à frente da porta aberta do carro) é a obra; a foto que resta, a sobra. (...) O que se vê aqui é a sobra da obra; o registro de uma arte que se foi, se chegou a existir”, observa o curador da exposição, Teixeira Coelho, em sua apresentação ao trabalho do artista. Assim, em face ao fim das grandes narrativas, ou a um período de “desordem informativa” – também na arte –, o que temos, na pós-modernidade, é um estilo de usar estilos que deixa resto, uma sobra que deixa rastro.
Esta hipótese também poderia ser concebida como a sobreposição de questões conceituais e metodológicas relativas ao ato de criar à própria “obra-resto-rastro” que dela resulta. Como uma obra que se desenvolve em uma temporalidade específica, o registro da obra-resto torna-se memória-rastro. Dito de outra forma, na medida em que o artista contemporâneo explora os diferentes materiais que compõem o mundo, e toma a liberdade de inventar o método apropriado para cada tipo de exploração, a arte, na pós-modernidade, vem engendrar a tessitura de um tempo operativo que se faz espaço – “lugar psíquico de constituição de subjetividade”.
Vale salientar, ainda, que a concepção da arte como “lugar psíquico de constituição de subjetividade” – fundamentalmente para aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável – encontra na inscrição da pulsão no registro da simbolização uma economia que possibilite o trabalho de criação, de produção de sentido e de ligação.
Claro, se, ao se ver confrontado às questões relativas à intensidade e excesso pulsionais, à premência e necessidade em produzir novos objetos de investimento, o sujeito realiza rupturas na visão de mundo constituída, será exatamente isto o que permitirá ao sujeito construir sua própria realidade de acordo com as leis que eventualmente conheça. Compreender ou dar sentido ao mundo em que vivemos será o mesmo que estruturar a realidade de um modo pessoal e estilizado.