ARTIGO - Arte Contemporânea, Sujeito Contemporâneo
ARTE CONTEMPORÂNEA, SUJEITO CONTEMPORÂNEO1

Publicado no Jornal abca – Ano VI – nº 12 – Pág. 11
Julho de 2007

Giovanna Bartucci

Tate Gallery, Londres, 1997: dispostos em três fileiras, 26 policiais britânicos posam, imóveis, para um “retrato” – por sessenta minutos. Sessenta minutos durante os quais acompanhamos a lenta e gradual desconstrução da representação do sujeito moderno – aquele que, em uma sociedade sustentada pelo imaginário do progresso, é artífice na construção do próprio destino.

Com efeito, a partir do “retrato” inicial – um grupo de 26 homens e mulheres imóveis, trajando uniformes policiais –, testemunhamos a dissolução dos limites entre público e privado, coletivo e singular, fato e ficção, voyeurismo e exibicionismo, representação e construção. O fato é que, à medida que o tempo passa, o espectador assiste a estes homens e mulheres, agora irrequietos, sucumbirem ao cansaço, à frustração e à inquietação, o “retrato” se transformando em um teste de resistência. Impactante, constrangedor e profundamente vigoroso, o vídeo Sixty Minute Silence (Silêncio de 60 Minutos, 1996), da artista britânica Gillian Wearing (1963), ganhadora do Turner Prize, em 1997, configura-se, então, como uma obra singular ao condensar as questões que vêm ocupando a arte contemporânea – ao mesmo tempo que antecipa os temas tratados pela arte na pós-modernidade.

Se a investida de Marcel Duchamp (1887-1968) às categorias estéticas tradicionais tem sido o motor por trás das diferentes mudanças de rumo ocorridas na arte do pós-guerra, situando, em igual medida, a fotografia, a performance, as propostas conceituais, a instalação, o filme, o vídeo, e as apropriações da cultura de massa ao lado da pintura e da escultura, como sugere David Hopkins, a arte contemporânea parece ter se constituido em um “estilo de usar estilos”, argumenta Arthur Danto. Sendo assim, se, por um lado, Wearing é reconhecidamente uma artista cujo trabalho tem por fim questionar “verdades pré-estabelecidas”, por outro, Sixty Minute Silence dá a ver a natureza efêmera da atualidade, em toda a sua extensão.

É provável também que tal obra não teria sido pensada antes dos anos 1990, década em que as transformações nas esferas política, econômica, social, cultural e geopolítica, iniciadas na década de 1970, começaram a ser identificadas como o processo de globalização. Idealizada às portas do século XXI, em tempos de especularização e virtualização das relações sociais e culturais, em que os destinos do desejo assumem uma direção marcadamente auto centrada e exibicionista, na qual o horizonte intersubjetivo se encontra esvaziado e desinvestido, não será difícil compreender que as questões relativas à intensidade e excesso pulsionais – características marcantes da atualidade – sejam fundamentais.

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1 Este artigo, ainda que publicado anteriormente, reproduz parcialmente idéias e desenvolvimentos que poderão ser encontrados no artigo “Concepções Contemporâneas da Arte, Concepção Contemporânea do Sujeito. Uma sobra que deixa rastro, um tempo operativo que se faz espaço”, publicado em www.giovannabartucci.com.br, em março de 2009