ARTIGO - O Informante
O INFORMANTE
Filme mostra o que não é falado
Publicado no caderno Ilustrada - Folha de S.Paulo - Pág. 5
18 de março de 2000
Giovanna Bartucci
A questão que se coloca é a seguinte: sempre e inevitavelmente dizemos mais do que aquilo que efetivamente falamos. Provavelmente muitos não concordarão, mas é frequente não sabermos, ou não sabermos que sabemos algo acerca daquilo que efetivamente dissemos.
E, fortuitamente, assim o é com “O informante”, filme de Michael Mann, com sete indicações ao Oscar. Com Al Pacino no papel do produtor do programa de televisão “60 Minutes” e Russell Crowe no papel do informante, muito já foi dito sobre este filme, desde sua qualidade de thriller polêmico (Karen Durbin, The New York Times), que trata do poder desenfreado das grandes empresas, até a de obra-prima capaz de simbolizar uma nova era do cinema americano (André Barcinski, Ilustrada). Mas a questão que nos envolve aqui é singular.
Há algo em “O informante” impossível de ser falado -- a começar pela fotografia de Dante Spinnotti. Observe bem: a iluminação utilizada neste filme é sempre baixa, destacando assim as nuanças.
A música, basicamente instrumental, o que faz com que a imagem dance a frente de nossos olhos. Mas, acima de tudo, se o objetivo de Michael Mann foi o de realizar um filme no qual não fossem apontados vencedores ou perdedores, mas sim o de mostrar a essência dos eventos, se sua idéia foi a de trabalhar o que acontece com as pessoas e como elas são afetadas diante de determinadas circunstâncias, o que temos aqui é uma raridade.
Não é necessário descrever o filme, mas, seja numa roupagem de “bom mocinho”, seja numa roupagem de thriller, ou seja, “diversão”, Mann vai direto ao ponto, diz daquilo que não é falado, talvez sem sabê-lo.
Quando Jeffrey Wigand (Crowe), em conversa telefônica com Bergman (Pacino) -- que está atrás de saber tudo sobre o passado de seu informante para poder defendê-lo contra a possível difamação de sua pessoa, o que descreditaria assim seu testemunho contra as companhias de cigarro --, pergunta-lhe, afinal, “que vida não tem falhas”, Bergman lhe responde: “É este exatamente o ponto, todas as vidas têm falhas”.
Mas, na verdade, o que Mann vai construindo pouco a pouco, com sua luz baixa, com sua música instrumental, com suas tomadas em câmara lenta, é uma linha divisória que, uma vez cruzada, atravesada, faz com que o sentido se perca. Há coisas que, uma vez “quebradas”, não se consertam, mesmo que se saia “vitorioso” ao final.
Quando a mulher de Bergman lhe diz, no momento em que tudo parecia voltar ao “normal”, “você venceu (ganhou)”, típica frase americana esta”, o produtor de “60 Minutes” pergunta-se: “Ganhei o quê?”. Na sequência, depois de um furo de reportagem, ele demite-se do “show”, da CBS News. Afinal, o que Mann parece ir dizendo é que, mesmo contra a sua vontade, Bergman perdeu mesmo, embora tenha vencido.
É, parece-me que sim, que “Beleza America” é um bom filme, embora muitos não o tenham em alta conta. Mas “O Informante”, no lugar de ficar chorando sobre o leite derramado, fazendo uma mea-culpa à la americana, marca uma linha divisória que, no mínino, inscreve-se de forma discreta, delicada e afetuosa, delimitando o de dentro e o de fora.
Se traduzirmos o título do filme literalmente, The Insider significa “aquele que é de dentro, que sabe (muito) a respeito do interior”. Talvez seja disto mesmo que se trate – daquilo que, indo em direção ao exterior, é capaz de dizer daquilo que é mais interior à alma humana.