ARTIGO - A Criação Da Sexualidade Feminina
Enquanto esse novo “ideal” referia-se à mulher como uma categoria universal, na realidade incluindo apenas as mulheres brancas de classe média, as mulheres “mais primitivas”, com “uma natureza mais próxima do animal, quer fossem pobres, imigrantes ou (negras), tinham maior promiscuidade sexual”. Nesse contexto, a ninfomania era uma doença em desenvolvimento permanente.

Se para a autora a medicina foi o ponto de partida para o estudo da ninfomania, “a história estende-se além da medicina, até o direito, a psicologia, e a cultura popular, inclusive a interação entre eles”. “Como a ninfomania vista por meio das lentes jurídica, médica, psicológica e popular é um (termo) muito ambíguo”, Groneman apresenta sua história organizada em capítulos de várias camadas.

O capítulo dedicado a “ninfomania do corpo” é a expressão de “muitas teorias médicas diferentes (que) tentavam explicar as causas da ninfomania: nervos esgotados, inflamação no cérebro, lesões na coluna, cabeças deformadas, além da genitália irritada e clítoris ampliado”. A Sra. R., vinte anos e grande disposição, viúva recente, atribuía à leitura de romances e ao comparecimento a festas alegres na juventude a causa de “sua imaginação ser atiçada ao mais alto grau”. Ou seja, de breves referências sobre uma paciente determinada a exames em larga escala da doença, os casos discutidos pela autora revelam tentativas de médicos -- e de suas pacientes -- para determinar o significado da ninfomania.   

Se ainda, no início do século 20, os modelos biológicos não haviam sido descartados, as explicações psicológicas começaram a apontar para a ninfomania como um distúrbio de personalidade. “A semininfomaníaca, a esposa erotizada, encorajada pelas noções modernas a esperar a satisfação sexual conjugal, o que muitas vezes não acontecia; a ‘nova’ jovem das classes trabalhadoras, sexualmente precoce, ‘hipersexual’ e delinqüente; e a ‘Nova Mulher’, masculinizada, sexualmente aberrante (…), as reformistas, sufragistas, profissionais instruídas, exigindo seu lugar na arena pública”, são as novas interpretações das mulheres e de sua sexualidade.

Assim, passando pelos “estudiosos do sexo”, por casos de “ninfomania nos tribunais”, e pela “revolução sexual” – “a ninfomania desapareceu do manual de distúrbios da Associação Psiquiátrica Americana” (DSM) –, a autora chega a conclusão de que “por trás das portas fechadas de consultórios médicos e vestiários masculinos, surgiu uma ‘ninfo feliz’, nas décadas de 1960 e 1970”. A ninfo feliz refletia, então, “as modernas teorias sexuais sobre o potencial multiorgásmico das mulheres”. No entanto, se a “contra-revolução sexual” adquiriu impulso na década de 1980, refletindo ainda as mesmas preocupações sobre quanto sexo seria demais, quanto não seria suficiente e quem decidiria, tratava-se de um movimento conservador em ascensão que atacava o que era percebido como “um colapso da moral ao melhor estilo de Sodoma, manifestado pelo sexo pré-conjugal, direitos gays, aborto, pornografia, e educação sexual”. Nas palavras de Groneman, “do meio dessas areias movediças culturais, a ninfomaníaca assumiu outra imagem, a da ‘viciada em sexo’.

Nesse modelo inspirado pelos Alcoólicos Anônimos, o sexo, como o álcool e as drogas, podia levar a um comportamento viciado” – como em outros vícios, não há “cura”, a pessoa se mantém “em recuperação” pelo resto da vida. 

Finalmente, foi no cinema que diferentes versões da ninfomania foram apresentadas, nos anos pós-revolução sexual: a femme fatale, elegante e perigosa, explicitamente bissexual; a heroína sexual pirada, pronta para se divertir; a jovem carente sexualmente, à procura de amor; a negra, assertiva sexualmente, que “precisa ser posta em seu lugar”; a associação da compulsão, da mentira patológica e da frigidez com a ninfomania.

Mas, como destaca a autora, “nenhum deles ofereceu o que se presumiu (…) que a libertação sexual feminina acarretaria: uma mulher sexual apaixonada e plenamente realizada”. De acordo com Gronemam, a “mulher da década de 1990 não tem medo do desejo sexual em si; apenas não compreende por que isso continua a afugentar seus namorados”. Aliás, antes que me esqueça, “satiríase” é o equivalente masculino do termo “ninfomania”.


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