ARTIGO - O Obsceno Senhor Schnitzler
Freud
Nascido em Viena, em 1862, filho de médico conhecido, Arthur Schnitzler segue a carreira do pai para abandoná-la na sequência. Se, para alguns, terá sido a sua relação com Sigmund Freud que o levou a escrever uma tese sobre o tratamento da neurose por hipnose, para outros, sua tese foi o indicativo inicial quanto ao seu interesse relativo aos sofrimentos da alma humana. De fato, nas palavras do próprio Freud, em carta enviada a Schnitzler por ocasião de seu sexagésimo aniversário: “seu determinismo e seu ceticismo – as pessoas o chamam pessimismo –, sua preocupação com as verdades do inconsciente e com os impulsos pulsionais do homem, sua dissecção das convenções culturais de nossa sociedade, a obsessão de seu pensamento com a polaridade do amor e da morte, tudo isto me comove, dando-me um irreal sentimento de familiaridade (…). Cheguei a formar a impressão de que sua intuição – ou talvez uma auto-observação minuciosa – lhe permite chegar àquilo que eu só pude descobrir mediante um laborioso tr
abalho de observação sobre outras pessoas”.
Acrescente-se a esta “confissão” de Freud, no entanto, o fato de que, embora tenha buscado na “química dos sentimentos” o fator determinante do comportamento de seus personagens, e tenha sido também um dos autores a introduzir, no lugar dos personagens estáveis do romance tradicional, a representação dos imperiosos fluxos de consciência, Schnitzler não compartilhava o mesmo sentimento de Freud. Em carta a Theodor Reik, em 1913, dirá: “quanto aos caminhos que conduzem aos abismos da alma, eles são mais numerosos e mais variados do que os psicanalistas – e o senhor – se permitem sonhar. E ainda estão a céu aberto muitos caminhos que os senhores acreditam dever desviar para o reino das sombras”.
Com efeito, tal afirmação de Schnitzler não deixa de ser compreensível. Afinal, se o Freud de 1908 compreende a obra de arte como um substituto do que foi o brincar infantil, uma vez que aproxima o artista, aqui o escritor criativo, da criança que ao brincar cria um mundo próprio reajustando seus elementos de uma forma que lhe agrade, mantendo com isso uma nítida separação entre seu mundo de fantasia e a realidade, reconhecer que o romancista não é apenas um “fingidor”, mas pode dar no cerne da verdade que seria privilégio do cientista, custou a Freud muitos anos de trabalho. De fato, compreender ou dar significado ao mundo em que vivemos será o mesmo que estruturar a realidade de modo pessoal e estilizado.
Assim, se a leitura da obra de arte é pouco explorada pelos pós–freudianos da perspectiva do já conhecido dualismo pulsional freudiano pulsões de vida e de morte (1920), será essa mesma pulsão de morte, uma vez que não se articula ao registro da linguagem, que imporá ao sujeito a necessidade de inscrição no registro da simbolização. Assim é que tanto a experiência psicanalítica, desenvolvida alhures como “espaço psíquico de constituição de subjetividade” – fundamentalmente para aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável –, quanto a arte, encontram na inscrição da pulsão no registro da simbolização uma economia outra que possibilite o trabalho de criação, de produção de sentido e de ligação. Daí talvez a relevância da “experiência literária”: ao mesmo tempo que as coisas são inalcansáveis pela arte, institui-se um lugar-outro onde o trabalho de criação, de produção de sentido e de ligação torna-se, então, possível.