ARTIGO - O Obsceno Senhor Schnitzler
O OBSCENO SENHOR SCHNITZLER

Duplo literário de Freud, autor vienense registrou em “Aurora” o significado inconsciente das palavras e ações de um jogador

Publicado no caderno IDÉIAS - Jornal do Brasil - Pág. 06
23 de março de 2002


Giovanna Bartucci

A referência a Arthur Schnitzler como o “duplo literário” de Sigmund Freud é frequente. Assim, se o nascimento da psicanálise está diretamente associado a formulação de Freud de que “o histérico sofre sobretudo de reminiscências” – ou seja, de que o neurótico sofre de representações inconscientes e/ou recalcadas –, o que a literatura de Schnitzler faz é “dar a ver” aos leitores uma apresentação aprofundada dos processos psíquicos, à maneira como ela nos é dada pelos poetas, diria Freud. Pois, sim, se a psicanálise pode também ser compreendida como um método de investigação que consiste essencialmente na evidenciação do significado inconsciente das palavras, das ações, das produções imaginárias de um indivíduo, Aurora (Boitempo Editorial), novela de Arthur Schnitzler – à maneira dos poetas –, é bom exemplo disto.

Conhecida como “um ensaio grandioso sobre o jogo e a alma do jogador”, Aurora (1926), obra prima do gênero, conta a história do tenente Wilhelm Kasda na Áustria anterior à Primeira Guerra Mundial, por meio da qual a moral de aparências e a promiscuidade social têm registro minuncioso. Não é à toa que Marcelo Backes, prefaciador e tradutor da obra, entende que “Schnitzler pintou o retrato da sociedade vienense e a decadência de uma nação poderosa, atacando seus hábitos e mostrando sua hipocrisia moral e sexual”.

Reconhecidamente “o” autor de dramas e novelas que bem exprimem o clima da Vienna Belle Époque – prenhe de artifícios, caminhos sinuosos e tráfico de influencias, acrescidos ainda do mais absoluto cuidado em “não dar a ver” as condições em que a vida real se desenvolve –, a produção literária de Schnitzler se inicia nos anos 1890 e é imediatamente cercada de uma aurea de escândalo. Suas peças – uma das quais, Der Reignen (1900), lhe valeu um processo por parte do exército –,  foram tidas como obscenas. No entanto, se por um lado a literatura de Schnitzler não se detém na crítica social – nem mesmo na análise de determinações históricas que fizeram da sociedade austríaca aquilo que ela foi –, por outro lado, sua literatura é tida como análoga da representação freudiana da atividade psicanalítica.

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