ARTIGO - A Pessoa Nasce Para O Que É
A PESSOA NASCE PARA O QUE É

Experimental e auto-reflexivo, documentário registra a vida das três irmãs cegas de Campina Grande (PB), que sobrevivem cantando embolada na rua

Publicado na revista MENTE&CEREBRO - Ano XIV - nº 158 – Pág. 15
Março de 2006

Giovanna Bartucci

“A pessoa é para o que nasce. Ninguém não pode dá jeito, né?”, diz Maria.

“A pessoa tem que cumprir com aquele destino que Deus dá”, afirma Regina.

“É porquê foi feito por Ele”, reafirma Conceição, a caçula das três irmãs de Campina Grande, Paraíba, que “nasceram para bater ganzá no meio da rua e pedir”.

Dirigido por Roberto Berliner e co-dirigido por Leonardo Domingues, com fotografia de Jacques Cheuiche e trilha sonora original de Hermeto Pascoal, o longa-metragem A pessoa é para o que nasce (2004)é a expressão do melhor cinema documentário brasileiro contemporâneo. Aliando experimentação artística e de linguagem à competência técnica, o filme é, ao mesmo tempo, observação e exposição da vida das três irmãs que, tendo nascido cegas, cantam embolada-de-coco desde a meninice em troca de esmolas para sobreviver.

Realizado de forma intervalada pelo período de cinco anos, durante a primeira fase de filmagem, em 1998, Maria, Regina e Conceição nos contam um pouco sobre sua infância, suas relações familiares e seu cotidiano. Os relatos das relações de amizade e amorosas trazem consigo os desejos das três irmãs e suas expectativas de futuro. A divulgação da realização do documentário promove ainda a ida das irmãs, como artistas profissionais, ao importante festival anual de música dedicado à percussão, Percpan, a convite de seus organizadores, ocorrido em Salvador e São Paulo em 2000.

Ao se utilizar também de material de arquivo, como entrevistas realizadas por Regina Casé e repórteres televisivos durante as décadas de 60, 80 e 90, A pessoa é para o que nasce finda por acompanhar a trajetória que levou as três ceguinhas de Campina Grande a caminho do reconhecimento em âmbito nacional.

O fato é que, na arte do documentário, “é evidente que você planeja voltar para casa com um filme que você não concebeu. Você não sabe direito o que vai ter ao cabo do processo”, sugere o documentarista João Moreira Salles em entrevista recente sobre o tema, na revista Cinemais (nº 25, 2000). Com efeito, após a divulgação, pela rádio local, de que Maria, Regina e Conceição, as três ceguinhas de Campina Grande, eram “tema de documentário”, a própria realização do filme passa a ser incorporada aos “outros personagens”.

Nessa medida – a partir de agora “interativo” e “reflexivo”, ou seja, também um filme sobre a realização de um filme e sobre a relação que se estabelece entre “documentarista” e “documentariado” –, ainda que ferrozmente criticado como um filme “oportunista”, A pessoa é para o que nasce é o testemunho mesmo do poder da arte enquanto instrumento de constituição de subjetividade. Não à toa, Maria irá afirmar, de maneira singela: “Desde pequena eu vivia assim, com a bacia na mão, pedindo esmola e o ganzá cantando pra hoje, depois de já caí na idade, eu ser estrela de cinema. Eu nunca pensei numa coisa dessas. (...) Eu nunca pensei de acontecer isso que está acontecendo comigo, receber tanto carinho... E eu pensei que eu não tinha esse valor”.

Longe de ter como objetivo “legitimar a boa ação do diretor”, ao acompanhar as ceguinhas a caminho do reconhecimento, o que A pessoa é para o que nasce faz – por meio da arte – é possibilitar às três irmãs um curvar-se para trás no tempo que finda por desvelar-se em um eterno vir-a-ser.