ARTIGO - O Divã Na Tv
O que parece, então, estar em pauta, na atualidade, são configurações subjetivas nas quais o autocentramento se conjuga com o valor da exterioridade. Assim é que ter, aqui, é ser. Ter objetos, usufruí-los, proporcionaria a satisfação almejada e implicaria ser reconhecido como imagem por um outro que também o é, situando o sujeito numa determinada definição identitária. No entanto, se para cada “ato exibicionista” é necessário um “ato voyeurista”, espera-se tudo do objeto e nada do sujeito. Esvanecer os limites entre interioridade e exterioridade, entre ficção e realidade indicaria a necessidade de permanência deste círculo vicioso no qual a ilusão da plenitude é dada a partir da manutenção do outro-telespectador no lugar de “voyeur”. Se o que seduz não é necessariamente o conteúdo dos programas, tal ato voyeurista significaria, então, o reconhecimento deste outro-exibicionista, e teria como função libidinizar essa “audiência anônima”, genuinamente ávida por reconhecimento.
E como avaliar, então, o sucesso da teledramaturgia brasileira? Considerada gênero menor, limitado ao entretenimento e à comercialização de produtos, fugindo ao controle de seu autor na medida em que são prolongadas, encurtadas ou alteradas de acordo com os índices de audiência e número de anunciantes, as telenovelas encarnam os atributos associados à cultura de massa. Entretanto, ao misturar características do melodrama, da notícia e do entretenimento, a telenovela é capaz de mobilizar audiências compostas pelos mais diferentes segmentos de público. Assim, se na década de 70, profissionais de teatro passam a trabalhar nas novelas, com o objetivo de realizar os ideais nacionais e populares que o teatro experimental não teria sido capaz de alcançar, na década de 80, as novelas passam a privilegiar temas nacionais, tratando de questões políticas centrais. Na década de 90, a telenovela chega, então, a intervir diretamente na conjuntura política e social. Com efeito, como atestam especialistas, nos últimos 50 anos, a teledramaturgia brasileira vem acompanhando as transformações tecnológicas, políticas, sociais e culturais que marcaram a história do país, diluindo, assim, as barreiras formais que as separam de gêneros como o telejornal, o documentário e – sugerem alguns – do reality show.
Há aqui, no entanto, uma diferença substancial, e é isso que torna-se importante destacar. Enquanto o reality show tem como fundamento a ausência de reflexividade – ou seja, o tomar a si próprio como objeto de reflexão –, configurando-se como o encontro e manutenção do par exibicionista-voyeur, o que podemos constatar é que a teledramaturgia brasileira aponta para ainda outra configuração subjetiva. De fato, configuração esta que remete à subjetividade construída nos primórdios da era moderna, época em que as noções de interioridade e de reflexão sobre si instauraram-se como eixos constitutivos do sujeito. Assim é que, ao tratar da “contraposição entre o Ocidente e o Oriente”, de dramas éticos, morais e amorosos, da clonagem humana e do debate em torno da dependência química – cujo ineditismo pareceria substanciar-se como o trunfo da novela –, o que O Clone, folhetim clássico, em nada original em seu formato, fez foi primar pela reflexividade.
Ao discriminar universos distintos, ao contrapor os mundos real e ficcional – por meio da introdução, por exemplo, de depoimentos verídicos de dependentes químicos, em oposição a possibilidade do telespectador acompanhar o “pensamento” dos personagens –, os valores, que no formato reality show são consumidos como mercadorias num sistema especulativo, adquirem, na teledramaturgia, importância significativa. Sejamos claros: é somente quando inscritos nos registros da alteridade e da diferença – o que supõe, necessariamente, o reconhecimento de nossa insuficiência e incompletude –, que substantivos como o amor, a família, a amizade e predicados como honestidade, integridade, lealdade e generosidade passam a ter uma função elaborativa, reflexiva, sublimatória. Mesmo que ainda tenhamos profunda “resistência” em reconhecê-lo, supondo-nos (sempre) homogeinizados e alienados, sentados “passivamente” diante da TV.