ARTIGO - O Divã Na Tv
O DIVÃ NA TV
O sucesso de formatos opostos como reality show e novela reflete a complexidade do público contemporâneo
Publicado na revista BRAVO! - Págs. 19-21
Julho de 2002
Giovanna Bartucci
Na verdade, a televisão, na era contemporânea, não parece estar promovendo mudanças sociais significativas, ou mesmo figurando algo antecipadamente, como propõem alguns especialistas. A televisão na era da globalização parece estar, sim, refletindo “diferentes estados de alma”, no que se refere às subjetividades na atualidade. O que dizer, afinal, do sucesso mundial dos reality shows, inclusive no Brasil? E, ao mesmo tempo, o que dizer da existência de uma teledramaturgia brasileira que – de fórmula inédita, hoje mundialmente respeitada e copiada – acaba de ter com uma novela como O Clone, de Glória Perez, os mais altos índices de audiência? A pergunta, então, parece ser: quem é este telespectador que, de forma contraditória, é capaz de render suas homenagens ao folhetim de Glória Perez, para, na seqüência compartilhar – de forma “interativa” – do destino alheio, num reality show?
Com efeito, o “pós-moderno” parece ser mesmo o lugar da ausência de garantias. A globalização – tendo produzido o enfraquecimento de fronteiras, de distinções entre culturas, aliado a uma mobilidade econômica, geográfica e cultural – tem trazido consigo um contingente de excluídos cuja demanda por reconhecimento é cada vez mais violenta. Entre a TV aberta e a TV por assinatura, temática, a indústria televisiva é, hoje, peça fundamental de uma indústria cultural de massa diretamente associada à globalização. Assim, ao testemunharmos uma reconfiguração de cenário com a convergência entre TV, Internet, entrada de capital estrangeiro e a conseqüente busca por novos formatos, nos habituamos a tratar a televisão globalizada como uma força homogênea e hegemônica, com tal poder sobre o público que, efetivamente, nos coloca problemas fundamentais no que diz respeito ao controle de conteúdo e fluxo de informação. Isso não quer dizer, no entanto, que a audiência tenha se tornado mais homogênea – ao contrário, está mais heterogênea, e suas respostas são cada vez mais complexas. E, ainda que sucesso, aqui, queira dizer aprovação de público – neste caso, composto por todas as classes sociais –, índices de audiência e percepção acerca do telespectador não se sobrepõem. Principalmente se considerarmos que os índices de audiência, massivamente divulgados, nos contam acerca do número de telespectadores que assiste a determinado programa, enquanto raramente se publicam pesquisas que mostrem quem eles são e porque o fazem.
É nesse sentido que cabe, aqui, a interrogação acerca do sucesso mundial dos reality shows. Representante de uma “estética” que pretende substituir ficção por realidade, no Brasil, encontramos os reality shows nos mais diversos formatos: Big Brother Brasil e Casa dos Artistas, claro, mas também “as pegadinhas” do Silvio Santos e do Sérgio Malandro, Sufoco do Domingão do Faustão, No Limite, Linha Direta, da Globo, Território Livre da Bandeirantes, entre outros. O fato é que, ainda que pretenda substituir ficção por realidade, o reality show é uma obra aberta, idealmente roteirizada para posterior avaliação, no decorrer de sua exibição. Com os participantes dirigindo-se à câmera “como se” a um interlocutor, sendo o interlocutor o próprio telespectador, é possível pensar o gênero como aquele que envolve algum tipo de participação dos cidadãos, reduzidos – até então – a posição de “meros” espectadores. Mas não me parece que num espetáculo “interativo” sejamos convidados a “optar o tempo todo”. Se nos oferece a ilusão da plenitude ao valorizar um presente fugaz e eterno, ao nos ofertar a certeza da satisfação garantida – seja por meio da participação dos cidadãos na resolução de um crime, ou por meio da alegria ou sofrimento compartilhado –, o formato parece dar a ver uma certa configuração subjetiva contemporânea. A audiência, não mais anônima, deseja, sim, ser olhada – reconhecida no seu anonimato.