ARTIGO - David Lynch E O Enigma Da Feminilidade
Ainda que não necessariamente surpreendente, ao acompanharmos Lynch em seu “sonho”, a narrativa enigmática desse filme nos remete à “Estrada Perdida”, obra de 1997 que trata da história de um assassino (Bill Pullman) que sofre de uma esquizofrenia aguda, na qual o cineasta explora “a capacidade que uma pessoa tem para desenvolver uma nova identidade, criando para isso novos amigos, um novo lar, uma nova família”. O diretor entende que “Estrada Perdida” aborda, em níveis profundos, os fragmentos da personalidade de um homem cuja “consciência oculta-se quando o horror da vida e o horror das nossas próprias ações se torna insuportável”. É nessa medida que o tema da busca de identidade, ou perda dela, já teria feito seu aparecimento anteriormente. Até mesmo as cenas do caubói em seu rancho hollywoodiano, ou o teatro que exibe produções em playback, a caixa com poderes de deslocamento espaço-temporais, ou ainda Betty, a jovem e ingênua atriz, escutando a si mesma ao telefone sem reconhecer a própria voz, em “Cidade dos Sonhos”, parecem ter sido antecipadas em 1997: o homem que falava consigo mesmo por meio do interfone, ou aquele que telefona para si próprio para demonstar que, na realidade, estava em outro lugar, ou nos dois ao mesmo tempo, ou ainda a loira cheia de desejo que era também a morena frígida, personagens interpretadas por Patricia Arquette.
Assim, se anteriormente a temática da perda de identidade, ou desdobramento dela, estava associada a constatação relativa “ao horror de nossas próprias ações” (ou seja, tinha uma função defensiva), em “Cidade dos Sonhos”, a busca de identidade parece ter função constitutiva. Associa-se ao que de enigmático é constitutivo da sexualidade feminina: a feminilidade. E, no entanto, ainda que uma apaixonada história de amor tenha nascido entre as duas mulheres, Betty e Rita, Lynch não se detém na questão da homosexualidade feminina – e com razão, a questão é mesmo anterior, na medida em que a feminilidade institui-se como um traço que se inscreve no registro da falta e do vazio, presente no cerne da experiência do desejo.
Finitude, morte, loucura, imperfeição, falta, vazio, aqui inscritas como um território originário, são representadas pela idéia de feminilidade. Em outras palavras, se aceitarmos situar a temática da constituição da sexualidade não mais no campo eminentemente redutor da anatomia, a questão se torna aquela de uma sensibilidade particular a uma falta – que não é a ausência real do pênis –, mas falta imaginária ou falta simbólica no campo da representação.
De fato, é mesmo de um corpo erógeno que se trata aqui: o bebê humano que, dependente dos cuidados maternos para sua sobrevivência, tem seu corpo circunscrito em zonas erógenas, pelo adulto que dele se ocupa. Será, então, um conjunto de traços sobre a sexualidade – tais como prematuridade, incompletude, insuficiência, polimorfismo, inexistência de objeto fixo da pulsão – que se torna importante considerar ao tratarmos do corpo erógeno. Caberá ao complexo de Édipo organizar o devir humano em torno da diferença dos sexos e da diferença das gerações. Édipo assume sua dimensão de conceito fundador quando Freud o articula com o complexo de castração, na medida em que instaura-se uma dessimetria radical entre o desenvolvimento psicossexual do menino e o da menina: o menino sai do complexo de Édipo pela angústia de castração, enquanto a menina ingressa no Édipo pela descoberta de sua castração e a inveja do pênis, tendo que fazer do pai o objeto de seu desejo.
É importante reiterar que, se em psicanálise o uso do termo “falo” sublinha a “função simbólica” desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetiva, o termo “pênis” é reservado para designar o orgão na sua realidade anatômica. Na mesma medida, se a idéia de que a “inveja do pênis” como mola da evolução da menina para a feminilidade já havia sido vivamente contestada enquanto Freud vivia, o importante aqui é sublinhar que diante das equivalências fundamentais, ou seja, a assimilação da feminilidade à passividade e a equação inconsciente “ser mulher = ser castrado”, a feminilidade constitui-se para a psicanálise como o próprio lugar do paradoxo.
Só teremos acesso à feminilidade como um traço que se inscreve no registro da falta e do vazio, que está no cerne da experiência do desejo. Com efeito, vale a pena reiterar: não se nasce mulher, torna-se mulher – percurso que nada tem de natural e, por vezes, segue desvios paradoxais.