ARTIGO - David Lynch E O Enigma Da Feminilidade
DAVID LYNCH E O ENIGMA DA FEMINILIDADE

Em uma abordagem psicanalítica, o filme “Cidade dos Sonhos”, tido como tortuoso e incompreensível, aparece como comentário sobre a construção da identidade feminina

Publicado no caderno Cultura - ZERO HORA - Pág. 6
08 de junho de 2002

Giovanna Bartucci

Que David Lynch é um dos mais inteligentes e brilhantes cineastas da atualidade, não há dúvida. Diretor de filmes como “O Homem Elefante” (1980), “Veludo Azul” (1986), “Coração Selvagem” (1990) – Palma de Ouro em Cannes, em 1990 –, “A Estrada Perdida” (1997), e o aparentemente simples e linear “História Real” (1999), Lynch parece ter superado a si mesmo com “Cidade dos Sonhos” (Mulholland Drive, 2001), pelo qual recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes no ano passado.

De fato, Lynch já disse publicamente que não compartilha da idéia de que os espectadores teriam se desacostumado a pensar e de que o seu único desejo seria o de receber “tudo tornado simples”. Ele acredita que as pessoas adoram pensar e que o cinema pode ser um desses produtos culturais “abstratos e lindos”, por meio do qual os sujeitos encontram um lugar para a experiência da elaboração, ao tirarem suas próprias conclusões. É possível compreender, então, por que a primeira pergunta que seus críticos fazem em relação à “Cidade dos Sonhos” diz respeito ao significado do filme. Ou ainda, por que eles desejam saber o que é que efetivamente se passa no filme. Alguns chegam até a usar o cinema pornográfico como contraponto, na busca de sentido para o cinema de Lynch – o que, afinal, os leva a concluir que a obra de Lynch não precisa de justificativas.

Prefiro, no entanto, acompanhar o diretor em seus delírios. Prefiro levá-lo à sério quando ele declara publicamente sua paixão por histórias que evoluem ao longo de vários episódios, tendo sido essa, afinal, a razão que o levou a fazer televisão – não nos esqueçamos da série Twins Peaks. Assim, “Cidade dos Sonhos” teria sido uma série para a rede de televisão ABC, caso os produtores não tivessem “odiado” o projeto piloto. Satisfeito com o resultado inesperado, Lynch deu, então, à “Cidade dos Sonhos” características e estruturas diferentes daquelas que havia originalmente planejado. Sorte a nossa, porque os filmes de Lynch estão sempre prontos para reafirmar a capacidade primordial do cinema de criar, de construir novas e diferentes narrativas. E talvez seja disso mesmo que se trate: a capacidade do cinema de David Lynch de mergulhar nos mares mais profundos, retornando à superfície com uma construção enigmática acerca do indizível. E o indizível, aqui, parece ser a temática da feminilidade, ou melhor, o enigma da feminilidade. 

Pois, sim, ainda que primando pelo suspense e sedução característicos de seus filmes, a história de “Cidades dos Sonhos” pode até ser considerada “banal”. Uma jovem garota loira ganha um concurso de dança, o que, na seqüência, a leva a querer atuar. Essa jovem e ingênua atriz (Noami Watts em uma de suas mais brilhantes atuações) chega a Los Angeles com o sonho de se tornar uma estrela e instala-se no apartamento da tia, também na indústria cinematográfica. Mas eis que, não mais que de repente, depara com uma morena de beleza intrigante (Laura Harring, ex-miss Estados Unidos) com um ferimento na testa, sobrevivente de um acidente automobilístico. Desmemoriada, a mulher morena toma emprestado o nome de Rita (Hayworth). Juntas, as duas decidem, então, descobrir a identidade de Rita. Em outro ponto de Los Angeles, o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux) é espancado pelo amante da esposa e, em seguida, roubado pelos mafiosos irmãos Castigliane. Ao final, uma história de amor nasce entre as duas mulhres, ainda que com um final trágico, no momento mesmo em que Kesher institui a triangulação que, mais tarde, virá a separar a dupla.
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