ARTIGO - Será Esse Um Amor Desejável?
É nesse sentido, então, que me parece difícil compreender por que, para alguns, “A Professora de Piano” trata da “impossibilidade do amor” e de uma época cujo roteiro amoroso pré-estabelecido criaria para nós “um roteiro de amor que somos incapazes de desempenhar”, despreparados que estamos “para assumir os riscos que ele implica” (Cultura de 18/05/02). Soma-se a isso a idéia de que, quando sentem sua individualidade ameaçada, “as pessoas punem, castigam, fazem mal àqueles que ousam se aproximar sem ressalvas”, ou mesmo, “punem-se, castigam-se, fazem mal a si mesmas por saberem-se inapatas a essa aproximação que lhes poderia salvar de si mesmas”. Com efeito, se há riscos no amor, se há medo no amor, será mesmo que em “A Professora…” o mal está por todos os lados?

O que parece ser, sim, difícil de compreender é que o que há em “A Professora de Piano” é a experiência amorosa, naquilo que Erika é capaz. Em outras palavras, estamos diante de uma “vítima” que procura um “carrasco” e que sente a necessidade de o formar, de o persuadir, de firmar com ele uma aliança tendo em vista o mais estranho dos empreendimentos. Não é à toa que se torna necessário regulamentar os “amores” por meio de contratos: todas as coisas têm de ser anunciadas e cuidadosamente descritas, antes de serem cumpridas. Se lembrarmos, ainda, que o conceito de fantasia é passível de ser compreendido como uma “encenação imaginária em que o indivíduo está presente e que figura, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente”, talvez nos autorizemos a pensar que Erika amou, na mesma medida em que havia desde sempre sido amada. 

Não, não me parece que a professora “privou-se da chance de descobrir a si mesma e ao outro no contato amoroso”. Erika amou, mas da única forma que soube fazê-lo: perdendo-o, matando-o para que pudesse existir. No entanto, no que diz respeito a Michael Haneke a questão parece ser um pouco mais complexa: ao exibir a violência à qual estão todos submetidos em “A Professora de Piano”, será Haneke conivente com ela ou será aquele que a denuncia? Se a denuncia, o que propõe? Ainda que o diretor austríaco entenda que a arte tem como função colocar questões, será que a “exibição” das mesmas é suficiente? Talvez, trate-se aqui daquela antiga questão, “a de como articular alienação e responsabilidade”, somada à também sábia questão acerca do “que fazer com o que fizeram de mim?”. Essa, sim, demanda do sujeito comprometimento frente a sua existência e àqueles ao seu redor.

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