ARTIGO - Será Esse Um Amor Desejável?
SERÁ ESSE UM AMOR DESEJÁVEL?

Psicanalista contesta crítica que vê o filme “A Professora de Piano” como comentário sobre impossibilidade do amor. Personagem de Huppert, segundo ela, ama, mas da única forma que sabe: perdendo e matando.

Publicado no caderno Cultura - ZERO HORA - Pág. 02
01 de junho de 2002

Giovanna Bartucci

Com efeito, não é à toa que “A Professora de Piano” (La Pianiste), último filme de Michael Haneke baseado em livro da escritora austríaca Elfriede Jelinek, tenha merecido as três Palmas de Ouro – melhor atriz, melhor ator e Grande Prêmio do Juri – com as quais foi homenageado no Festival de Cannes de 2001. As interpretações magistrais de Isabelle Huppert (Erika) e Benoit Magimel (Walter) parecem ser, de fato, o que o filme tem de melhor. Michael Haneke, cineasta nascido em Munique, com estudos nas áreas de Filosofia, Psicologia e teatro tem sido, desde sempre, aclamado pela crítica internacional por filmes que não cedem a soluções conciliatórias no que diz respeito a intensidade e exploração psicológica. Fundamentalmente, Haneke entende que “levar o espectador à sério” significa lhe colocar questões. Para o cineasta, a arte não tem como função oferecer respostas mas questões, e questões apenas. Muito bem, mas do que será mesmo que trata “A Professora de Piano”, filme que desde seu lançamento desperta profundas mobilizações?

Huppert é Erika Kohut, competente professora de piano no Conservatório de Viena que, ao final de sua jornada de trabalho, frequenta cinemas pornôs e entretem-se com peep-shows em sex-shops. Obtém prazer no voyeurismo e na automutilação. Em torno de seus 40 anos, ainda mora com a mãe (Annie Girardot) profundamente possessiva e rígida, que prima por observá-la, controlá-la e humilhá-la, impedindo-a de viver. Mais do que isso: a única forma por meio da qual esta mãe sabe se ocupar de sua filha – e nesse sentido, sua única forma de amá-la – é fazendo-a sofrer. Frente a mínima percepção de que Erika possa ter vida própria, a mãe está sempre pronta a tirar-lhe a vida. Em outras palavras, eis uma mãe que, em nome do amor materno, da moralidade, é capaz de matar. Filme violento, difícil de assistir? Sim.

Assim, não é à toa que Erika não saiba fazer muito mais do que isso: amar para ela está em humilhar, maltratar, mutilar, controlar, submeter. E será isso mesmo que irá propor a Walter (Magimel), jovem aluno por quem se apaixona: um caso de amor regido por um contrato sadomasoquista, no melhor estilo da literatura de Sacher-Masoch e do Marquês de Sade. Ainda que Richard von Krafft-Ebing tenha cunhado o termo “masoquismo”, por exemplo, para designar um tipo de comportamento sexual por meio do qual um sujeito obtém prazer através da dor, de sofrimentos e de humilhações físicas e morais, é importante observar, aqui, que essa dinâmica é compreendida menos pelo laço dor-prazer sexual do que pelo comportamento mais profundo de escravatura e de humilhação. No que diz respeito a tal literatura, a intenção seria a de situar a linguagem em relação ao seu próprio limite por meio de uma espécie de “não-linguagem” – em última instância, a própria violência que não fala. E assim também vamos nós, em “La Pianiste”, durante 129 minutos de filme.

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