ARTIGO - Concepções Contemporâneas Da Arte E Do Sujeito

O fato é que, ao se deterem sobre a questão, “O que constitui a pesquisa na área de artes hoje?”, pesquisadores e artistas sinalizam a sobreposição das pesquisas relativas às questões conceituais e metodológicas associadas ao ato de criar à obra/resto/rastro que dela resulta.

De forma exemplar, o ensaio de Liliza Mendes, mencionado acima, e que é uma parte de sua dissertação de mestrado, se detém sobre Rastro, trabalho da artista que “se apropria em sua matéria, a cerâmica e o metal, das marcas de sua feitura e se abre a relações com a idéia de desgaste, resto, tempo”. Uma “obra que se desenvolve como uma trama no espaço (...), o trabalho foi constituído através da união de elementos, encadeados por fios que articulam e sustentam as partes em um todo final. A textura é a pele do trabalho e a memória do gesto registrada na matéria. Como pele, ela é uma superfície, o limite externo das coisas e o ponto de contato entre o que ali se superficializa e o que a alcança vindo de fora”, observa a autora. De fato, se cada trabalho também traz algo do anterior que, como “resto” – “esse resíduo antecedente que reaparece em uma dada obra” –, permanece no próximo, a obra relata “o fato da existência, sem, no entanto, contar uma história”.

Assim é que, “o desenvolvimento de uma forma tentado por seu esgotamento (...), a criação dos fragmentos e sua junção em corpos autônomos busca apresentar o relato implícito de uma construção, levada a termo pela prática de uma deterioração, de algo composto por decomposição. O registro da história do trabalho está ali, no objeto-resto-de-si-mesmo”, elabora a artista.

E ainda, se, em “Corpos residuais”, a também professora, Maria Angélica Melendi, entende que “a arte dos últimos anos tem apresentado o corpo do artista como o lugar onde se consuma uma batalha que ultrapassa as suas próprias margens e que exibe, nos seus fragmentos, resíduos e rastros de traumas”, a narração e a exposição do corpo ferido constituindo um gesto político, a imagem de “corpo”, considerada por Liliza Mendes, também apresenta “a condição de tridimensionalidade da obra como análoga à nossa experiência corporal de ocupação do espaço”.

Ricardo Basbaum também coloca o seu trabalho “em cena”. Com uma de suas obras atualmente disponível ao espectador, no Instituto Tomie Otake, em São Paulo, integrando a exposição “80/90 Modernos Pós Modernos Etc”, com curadoria de Agnaldo Faria, a própria leitura de seu texto “Projeto Novas Bases para a Personalidade: algumas pistas de um programa em processo” – que retoma o trabalho iniciado com a sua participação na exposição “Como vai você, Geração 80?”, no Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1984, até a atualidade – deve respeitar as marcações cenográficas determinadas pelo artista.
Curiosamente, se “a instalação é o plano de consistência de um conceito prometido, cuja promessa se desenvolve, cresce, murcha, acerta, fracassa, mas deixa sempre resíduos”, na medida que o “conceito não se dissolve, porque seu caminho passa pela produção desses resíduos, produção condicionada na fricção inerente ao entender”, como sugere o pesquisador Stéphane Huchet, no ensaio “A instalação em situação”, não será difícil conceber o volume Concepções Contemporâneas da Arte como testemunho do lugar que a arte ocupa, na pós-modernidade – um “lugar de constituição de subjetividade”. O fato é que se, “enquanto prática enunciativa, a instalação gera esse corpo residual que é o corpo de uma proposição sobre um teatro que não se consome”, deverá gerar também uma temporalidade que deixa rastro. Assim, enquanto o artista contemporâneo explora os diferentes materiais que compõem o mundo, e toma a liberdade de inventar o método apropriado para cada tipo de exploração, a arte, na pós-modernidade, vem engendrar a tessitura de um tempo operativo que se faz espaço – um “lugar psíquico de constituição de subjetividade”.

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