CONCEPÇÕES CONTEMPORÂNEAS DA ARTE, CONCEPÇÃO CONTEMPORÂNEA DO SUJEITO
Uma sobra que deixa rastro, um tempo operativo que se faz espaço
Publicado em www.giovannabartucci.com.br
Março de 2009
Giovanna Bartucci

Tate Gallery, Londres, 1997: dispostos em três fileiras, 26 policiais britânicos posam, imóveis, para um “retrato” – por sessenta minutos. Sessenta minutos durante os quais acompanhamos a lenta e gradual desconstrução da representação do sujeito moderno – aquele que, em uma sociedade sustentada pelo imaginário do progresso, é artífice na construção do próprio destino.
Com efeito, a partir do “retrato” inicial – um grupo de 26 homens e mulheres imóveis, trajando uniformes policiais –, testemunhamos a dissolução dos limites entre público e privado, coletivo e singular, fato e ficção, voyeurismo e exibicionismo, representação e construção. O fato é que, à medida que o tempo passa, o espectador assiste a estes homens e mulheres, agora irrequietos, sucumbirem ao cansaço, à frustração e à inquietação, o “retrato” se transformando em um teste de resistência. Impactante, constrangedor e profundamente vigoroso, o vídeo
Sixty Minute Silence (
Silêncio de 60 Minutos, 1996), da artista britânica Gillian Wearing (1963), ganhadora do Turner Prize, em 1997, configura-se, então, como uma obra singular ao condensar as questões que vêm ocupando a arte contemporânea – ao mesmo tempo que antecipa os temas tratados pela arte na pós-modernidade.
Se a investida de Marcel Duchamp (1887-1968) às categorias estéticas tradicionais tem sido o motor por trás das diferentes mudanças de rumo ocorridas na arte do pós-guerra, situando, em igual medida, a fotografia, a
performance, as propostas conceituais, a instalação, o filme, o vídeo, e as apropriações da cultura de massa ao lado da pintura e da escultura, como sugere David Hopkins, a arte contemporânea parece ter se constituido em um “estilo de usar estilos”, argumenta Arthur Danto. Sendo assim, se, por um lado, Wearing é reconhecidamente uma artista cujo trabalho tem por fim questionar “verdades pré-estabelecidas”, por outro,
Sixty Minute Silence dá a ver a natureza efêmera da atualidade, em toda a sua extensão.
Instituto Itaú Cultural, São Paulo, 2007: a fotografia que abre a exposição “Itaú Contemporâneo. Arte no Brasil 1981-2006” retrata a pintura da figura de um rapaz por sobre um muro, “rapaz” este que, situado atrás do muro, observa um homem de pé, à frente de um carro parado com a porta aberta, em uma rua deserta. Parte integrante do trabalho “Metabiótica”, do artista plástico e fotógrafo Alexandre Órion, pintura e fotografia dividem, aqui, um mesmo espaço urbano. E, de fato, se o seu trabalho questiona os limites entre as linguagens, tanto da perspectiva formal, quanto conceitual, também é verdade que vai além – deixa rastro. “A interação registrada pelo artista (entre a pintura do rapaz, no muro, e o homem que pára, desce de seu carro e se coloca à frente da porta aberta do carro) é a obra; a foto que resta, a sobra. (...) O que se vê aqui é a sobra da obra; o registro de uma arte que se foi, se chegou a existir”, observa o curador da exposição, Teixeira Coelho, em sua apresentação ao trabalho do artista. Assim, em face ao fim das grandes narrativas, ou a um período de “desordem informativa” – também na arte –, o que temos, na pós-modernidade, é um estilo de usar estilos que deixa resto, uma sobra que deixa rastro.
Não à toa, Liliza Mendes, artista plástica e professora da Escola de Belas Artes/UFMG, se debruça sobre o tema em “Considerações sobre o rastro. A cerâmica, o cabo de aço, os ilhoses; textura, superfície, resto, tempo, repetição e chão”, ensaio que compõe o recém-lançado
Concepções Contemporâneas da Arte (Editora UFMG, 350 páginas). Com organização do professor e pesquisador Luiz Nazario e da artista plástica e professora Patricia Franca, coletânea composta por ensaios, escritos de artistas e relatos de pesquisas sobre a natureza da arte e seus tangenciamentos – arquitetura, cinema, cinema de animação, música, a metodologia do olhar, o lugar da imagem, a imagem da escrita e a escrita da imagem, tecnologia de imagens, conservação e restauração –, e as condições onde emergem a produção artística e sua contextualização,
Concepções nasceu da necessidade do Programa de Pós-graduação em Artes da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais dar vazão à sua produção intelectual, ao mesmo tempo que criar um fórum de interlocução com professores e pesquisadores de outras universidades.