ALMODÓVAR FREUDIANO
Publicado em www.giovannabartucci.com.br
Março de 2009
Giovanna Bartucci
Falar de desejo e falar de pulsão sexual são, para Freud, duas maneiras de abordar o mesmo fenômeno. E, não à toa, o desejo, potência que põe os sujeitos em obra, tem sido o elemento central e ordenador do universo cinematográfico do espanhol Pedro Almodóvar.

Associado ao afastamento que se estabelece entre necessidade e demanda, o desejo inconsciente tende a se realizar restabelecendo os sinais ligados às primeiras experiências. Baseia-se na premissa de que “o” objeto que um dia deveria ter trazido miticamente a primeira satisfação está perdido para sempre, o que faz com que o sujeito parta em sua busca. Pressupondo, então, que a satisfação completa da pulsão seja impossível, a referência à “vida” dos desejos insatisfeitos que incita os sonhos – neste caso, os filmes de Almodóvar – expressa-se na linguagem do pulsional.
Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980),
Maus hábitos (1983) e
Que fiz eu para merecer isto? (1984), os primeiros longas-metragens do cineasta, atestam essa proposição exatamente por meio de narrativas cujos protagonistas se encontram às voltas com exibicionismo, voyeurismo, incesto – tal e qual o casal Sexilia (Cecilia Roth), jovem erotômana, e Riza Niro (Imanol Arias), filho homossexual de um imperador árabe, em
Labirinto de Paixões (1982).
As “perversões” – temas que Almodóvar trata sem o menor preconceito –, entretanto, terão, nos filmes seguintes, funções distintas. O deslocamento da satisfação pulsional imediata para o segundo plano se dá no momento exato em que o cineasta passa a atribuir ao objeto amoroso uma condição restauradora, possibilitando ao sujeito realizar de forma ativa uma experiência que não lhe foi possível viver anteriormente. Por isso, Marina (Victoria Abril) e Ricky (Antonio Bandeiras), protagonistas de
Áta-me! (1989), serão capazes de reconstruir a si próprios por intermédio da experiência de uma relação amorosa.
E mais, se desejo e morte caminham juntos em
O matador (1985),
A lei do desejo (1986),
De salto alto (1990) e
Kika (1993), as experiências amorosas – agora, com a função de “constituição de subjetividade” – narradas em
Tudo sobre minha mãe (1999) e
Fale com ela (2002), com certeza, foram antecipadas por
Mulheres à beira de uma ataque de nervos (1987)
, Áta-me! (1989),
A flor de meu segredo (1995) e
Carne trêmula (1997), e só foram possíveis após a realização desses longas. Assim, sexualidade, drogas e morte tornam-se, nas obras mais recentes, temas que caminham
pari e passu com generosidade, solidariedade, amizade e amor.
Freud já dizia, na primeira metade do século 20, que “criar não é chorar o que se perdeu e que não se pode recuperar, mas substituí-lo por uma obra tal que, ao construí-la, se reconstrói a si próprio”. O fato é que essa frase bem poderia ter sido enunciada por Pedro Almodóvar, um dos mais criativos cineastas dos últimos tempos.