ARTIGO - Com “Beleza Americana”, A Academia Premiou A Si Mesma
COM “BELEZA AMERICANA”, A ACADEMIA PREMIOU A SI MESMA
Filme de Sam Mendes utiliza-se dos mesmos meios que critica
Publicado no caderno Ilustrada - Folha de S.Paulo - Pág. 2
29 de março de 2000
Giovanna Bartucci
E o Oscar vai para… Era previsível: “Beleza Americana”, primeiro filme do diretor de teatro britânico Sam Mendes, 34, levou o Oscar de melhor filme. Previsível porque?
Pergunta já parcialmente respondida tanto por Inácio Araújo, quanto por Marcelo Coelho, na Ilustrada, uma vez que ambos destacaram as qualidades de “filme oportunista e teatral, no mau sentido da palavra” e a de ausência do “tom de denúncia, de crítica, que se atribui ao filme”, tornando “Beleza Americana” um filme de sucesso fácil.
É verdade, “Beleza Americana” é um filme simpático, bem dosado e cheio de surpresas.
Mas, o que é surpreendente, no entanto, e talvez nem tanto e por isso mesmo sua vitória previsível, é que, nesse filme, forma e conteúdo correspondem-se. “Beleza America” é um filme raso: um filme que em sua pretensa crítica ao “american way of life” serve-se dos mesmos elementos que o constituem.
Em outras palavras, aquilo mesmo que o filme veícula (ou “critica”) configura uma determinada representação do mundo, das relações entre as pessoas, nelas mesmas e para elas mesmas produtora de uma mesma realidade que será, eventualmente, concebida como modos de conduta. Na verdade, já o são.
Veja só: quem será este filho que se relaciona com seu pai refletindo de volta para o mesmo o comportamento que este próprio pai projetou no filho e para o filho? Ricky Fitts (Wes Bentley) é este filho adolescente com cara de retardado que passa o dia filmando e sustenta-se por meio da venda ilegal de maconha: “Meu pai interfere menos quando pretendo ser um cidadão respeitável”.
Ou, então, o que pensar desse comentário do mesmo Ricky ao tentar explicar à Lester (Kevin Spacey) a ausência de “desconfiometro” de seu pai em relação às suas amplas possibilidades de consumo de câmaras, vídeos etc, já que para o pai, Ricky trabalha como garçom: “Nunca subestime o poder da negação”.
A rebeldia de Lester, marido e pai qualificado como “perdedor” por sua esposa e filha, tem como objetivo atingir Carolyn (Annette Bening), a esposa cuja persecução permanente do sonho americano, na percepção de Lester, reafirma a sua própria insignificância.
Jane, a filha, tem a mesma reclamação em relação a seu pai: ele se relaciona com ela como se ela não existisse. Mas, talvez, seja disto mesmo que se trate: sujeitos em uma busca desenfreada de algo que confirme suas existências.
Não é à toa que o ponto alto de “Beleza Americana” é a “relação” de Ricky com aquele tal saco de papel que dança em frente de seus olhos durante alguns segundos, dizendo-lhe que é somente “você olhar em volta que você vê beleza”. Foi aí que ele entendeu que há vida “por trás das coisas” e também uma “força benevolente dizendo que não é preciso ter medo”.
Pois é, há porque se ter medo, sim, uma vez que Ricky, Lester, Carolyn e Jane estão certamente falando acerca de suas vivências de tédio e vazio. Vivências nas quais as relações com as pessoas são substituidas por relações com aparelhos e coisas. O que dizer, então, da relação fetichista que Ricky estabelece com “as imagens”, por meio da permanente gravação das mesmas?
Ele mesmo responde, tão claramente: passa o tempo todo gravando porque as imagens lhe ajudam a lembrar. Tais imagens reafirmam seu pedido de reconhecimento de sua existência por um outro.
Mas, veja só, se as experiências de perda e o reconhecimento da incompletude do sujeito abrem caminho para a subjetivação permanente, para a alteridade e temporalidade e, consequentemente, para um futuro que tenha sentido, que repare as injustiças do presente, “Beleza Americana” passa a ter assistência obrigatória. Não porque ganhou o Oscar, afinal a “Academy” deu um Oscar para si mesma, mas porque este filme nos coloca face à aquilo que, certamente, não desejamos para nossos filhos ou netos.